terça-feira, 25 de outubro de 2011

A Praça



Faço dos sonhos o meu berço, tapete de viajar
Não sei, não morro de amores por ti, só em sonhos, doces de degustar

Faço de minhas lembranças, amarração de folhas soltas no céu
Se misturando ao vento morno, composições com gosto de mel

Poemas,
Alma de uma canção,
que foi cantada, de dentro do coração
Momentos,
Pedaços de uma vida
soprados, nas cordas do violão

Faço dos sonhos o meu barco, para poder te alcançar
E em minhas lembranças claras, em ti poder navegar

Junto pedrinhas no chão, e faço o meu castelo
Com gosto de goiabas doces, jabuticaba e marmelo

Brinquedos,
Esparramados na praça
Crianças cheias de vida e de graça
Coreto,
O centro de uma canção
da Praça, ele é o coração

Não vejo a hora de voltar, a ser criança
Para poder te encontrar...
E ansiosa aguardo a hora, da partida
Para teu mar visitar...

Pedrinhas,
Brancas como os teus momentos
Peixinhos,
Jardins do meu pensamento
Saudade,
De algo que não tem mais
De um tempo
Que há muito já ficou pra trás...

domingo, 16 de outubro de 2011

A Atitude Pró-ativa


Eu não gosto de escrever em meio a uma crise, e sim, houve agora uma crise e eu mesma estou em crise...

Não gosto de escrever em meio a crise porque eu me conheço! Apesar de ser brasileira, e ter em minhas veias o sangue alemão, herdado da parte do meu pai, eu tenho também rompantes de italiana, quando fico nervosa ou tensa eu costumo externar a minha raiva em explosão de gestos e falações, típico de uma italiana, e a vantagem disto é que eu não guardo raiva. Após isto eu me tranquilizo e muitas vezes perdoo, o que é bom para a preservação da minha saúde.

A desvantagem é que invariavelmente na hora eu perco a razão por estar com raiva, e isto não é sábio e nem bom, até porque nos impede de refletir antes de opinar.

Então com o tempo eu aprendi a me calar no rompante da crise, e só opinar depois.

Eu também constumo escrever aqui de forma mais voltada para quem está conhecendo o Islam agora, para o leigo, e não para quem já conhece o Islam, embora saiba que acabe contribuíndo também para os meus irmãos e irmãs na construção do conhecimento que é dever de todo muçulmano, de toda muçulmana.

Mas hoje talvez eu esteja escrevendo mais para quem já é muçulmano, não sei...

Tivemos ao longo deste fim de semana a notícia de triste fato motivado por preconceito religioso por parte de um centro de treinamento de condução de veículos e por parte do Detran, me refiro à irmã que teve sua prova de renovação da carteira de motorista interrompida por estar usando hijab.

Este fato motivou, além das medidas legais cabíveis que eu sei que darão sim frutos, já que todos os envolvidos tiveram o grande azar de, além de ter provada toda a sua atitude preconceituosa, terem mexido com integrante de família importante, também protestos e opiniões acaloradas de todos os muçulmanos através da internet, todos aliás com muita razão sim porque um crime de preconceito religioso foi praticado contra uma irmã nossa.

Para quem não sabe:

Discriminação religiosa é crime! Enquadra-se no art. 20 da Lei Caó (lei nº 7.716/89 alterada pelas leis nº 8.081/90 e 9.459/97. Lei nº 12.288/20.07.2010) conforme abaixo:



Art. 1º - Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.


Art. 20º - Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.


Pena: Reclusão de um a três anos e multa...

Também tivemos a manifestação de pessoas que, sem a mínima base de conhecimento, protestaram alegando que a proibição está certa, que nos "países islâmicos" não há respeito a outras religiões e escolhas, etc, etc, etc...

Em primeiro lugar, NÃO EXISTE PAÍS ISLÂMICO NO MUNDO HOJE EM DIA.

Isto é muito simples de constatar: Existe algum país cujo governo seja capitaneado por um Khalifa? Não? Ah então sinto muito mas não tem então nenhum governo islâmico...

O que existe, aí sim, são países de MAIORIA ISLÂMICA, e tem de existir mesmo, afinal o ISLAM HOJE EM DIA É A MAIOR INSTITUIÇÃO OU CONGREGAÇÃO RELIGIOSA DO MUNDO.

Ah sim o Cristianismo é maior... Mas é maior se juntarmos todas as congregações, inclusive a Católica, em uma só religião. E a Católica é a maior delas ainda.

O Islamismo é maior do que o catolicismo, então é a maior congregação religiosa hoje em dia.

Em segundo lugar, 99,9% das pessoas que opinaram na forma de achar certo a atitude preconceituosa:

01. Nunca moraram em um país de maioria islâmica;

02. Não conhecem ninguém que mora lá;

03. Não conhecem e nunca conversaram com nenhum muçulmano e nenhuma muçulmana;

04. Não sabem o que é de verdade o Islam.

E por não saberem o que é o Islam, confundem RELIGIÃO COM NACIONALIDADE, um grande erro, e consideram que atitudes de países cujos governos sucessivamente têm se afastado do Islam e trazido de volta os costumes abomináveis da Era da Ignorância, tão duramente combatidos pelo Profeta Muhammad (saws) POR DESLEIXO, ou muitas vezes por "EXCUSOS INTERESSES" de grupos e governos longíquos e poderosos, como atitudes islâmicas, quando não são.

Basta lembrarmos da atitude de Saladino (escrevo assim para ser identificado por todos) por ocasião da tomada de Jerusalém, não só preservando todos os locais cristãos como também permitindo o acesso de cristãos a estes locais.

Basta citarmos que não: muçulmanos e cristãos egípcios não estão em guerra, a não ser quando são incitados e direcionados a isto por "grupos" cujos interesses são muito mais profundos e satânicos do que um eventual motivo religioso.

Mas, na verdade eu vim falar aqui de duas coisas:

01) O cumprimento da LEI;

02) A atitude pró-ativa.

A atitude pró-ativa é aquela atitude que possibilita a ação positiva, a construção verdadeira da defesa legalista, e que dá frutos, ao contrário do que acontece quando ficamos apenas reclamando e nos vitimizando.

Há uma lei a ser cumprida, há uma comunidade que cresce de forma espantosa todos os dias no Brasil que, repito, porque já falei sobre isto, precisa acordar, deixar suas diferenças internas de lado, se unir, se organizar, e exigir os seus direitos.

Eu ainda sinto que falta isto na comunidade islâmica brasileira, estamos precisando de organização e ação.

Então tá, o que deve ser feito no caso? Precisamos da garantia de que fatos assim não vão se repetir, precisamos exigir o cumprimento da lei, precisamos agir!

A atitude pró-ativa acontece quando você:

01) Observa;

02) Obtém a consciência a partir da reflexão de sua observação;

03) Com base nestas reflexões e na conclusão delas, elabora um planejamento;

04) Executa o que foi planejado.

Isto leva a uma atitude pró-ativa, e ela começa a nível pessoal quando você cumpre o seu papel na defesa de seus direitos e do Islam no seu dia-a-dia, e desemboca na atitude social quando você une forças com os seus irmãos e irmãs, para exigir o direito do grupo, e promover a defesa do grupo, dentro do que é estabelecido em lei.

E este ponto que precisamos por em prática, é isto que me move a escrever aqui.

Irmãos e irmãs, precisamos nos unir, ter a consciência do que nos garante a lei, e exigir este cumprimento.

Esta é a minha opinião.

Salam!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Blog CRÓNICAS DAS MUÇULMANAS NO OCIDENTE - vale a pena conhecer =D

Eu estou participando como uma das autoras do blog CRÓNICAS DAS MUÇULMANAS NO OCIDENTE, um blog muito divertido e bem humorado, um trabalho muito bom realizado por diversas mãos de irmãs queridas, e internacional já que une irmãs de Portugal e do Brasil.

Tudo isto está fazendo com que o blog seja algo realmente diferente e delicioso tanto de ler quanto de participar, conferindo a ele um "tempero" todo especial!

Eu estou participando com muito carinho deste blog e convido todos que curtem este meu cantinho a conhecer também este blog, garanto que vocês irão se divertir com as nossas histórias, todas reais, vividas no nosso dia a dia de muçulmanas no Ocidente!

Pensa que é fácil ser uma muçulmana por aqui???

Rs... não é fácil não, mas com bom humor e boas intenções no coração, dá para sobreviver e ainda se divertir =)

Espero que todos gostem!

Salam!

Shahada - Thami Khadija


Shahada da querida irmã Thami Khadija, um momento muito emocionante!

A Shahada é o testemunho de fé, um dos 5 pilares do Islam, e o momento exato em que uma pessoa se torna muçulmana, é a reversão ao Islam.

Foi a parte mais linda do nosso passeio no Zoológico de São Paulo no dia 12 de outubro de 2011. =)

E eu tive a honra de ser testemunha e de falar as palavras para ela repetir:

"Ash hadu an la illaha ila Allah, wa ash hadu Muhammad rasullullah"
"Testemunho que não há outro Deus além de Allah, e que Muhammad é seu mensageiro"

A partir deste momento, a Thami se tornou muçulmana, todos os pecados anteriores dela foram perdoados, e ela ganhou uma nova vida de fato!

Que Allah facilite os passos dela e abençoe sempre a vida e a casa dela!

Allahu Akbar!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Passeio no Zoológico de São Paulo



Dia 12 de outubro é feriado aqui no Brasil.

Um feriado misto, porque é o Dia das Crianças, e também porque é um feriado católico, Dia de Nossa Senhora Aparecida (Padroeira do Brasil) e o Brasil é um país muito engraçado, se diz Laico mas NÃO É.

É laico sim, contando que você, independente de qual seja a sua religião concorde em ser forçado a aceitar "de livre e expontânea vontade" que as datas comemorativas cristãs (na verdade com ênfase no catolicismo) são mais importantes do que outras datas e devem ser motivo de feriado, festa e outras coisas mais...

Bem, mas como é feriado mesmo, eu e algumas amigas e irmãs no Islam resolvemos marcar um delicioso passeio no Jardim Zoológico de São Paulo, um autêntico "Programa de Índio", como se diz por aqui, ou seja, um programa que com certeza dará errado!

Porque? Ah... porque especialmente no Dia das Crianças, o Zoológico fica lotado de gente, e já é muita sorte conseguir chegar até a portaria, afinal apenas uma estreita e antiga avenida, comprida e sem alternativa de caminhos, leva até o complexo de parques onde o Zoológico está localizado, imagina então entrar no mesmo...

Mas fomos abençoadas e conseguimos entrar até com certa facilidade, apesar das imensas filas tanto no terminal de ônibus quanto nas bilheterias do Zoológico.

Entramos Allhamdulillah, e de fato o parque estava cheio!! O Jardim Zoológico de São Paulo é simplesmente o maior Zoológico da América Latina (em São Paulo tudo é grande, ou imenso...) e eu vou dizer uma coisa para vocês: meninos e meninas, eu nunca na minha vida tirei tantas fotos como tirei no Zoológico!! =O

Se vocês estão pensando que eu fotografei os bichos... erraram. Na verdade todo mundo resolveu me fotografar, seja pedindo para tirar fotos, seja tirando sem pedir, seja tentando disfarçar que estava fotografando, ou tirando fotos comigo e com as meninas, entre nós, o fato foi que o que eu mais vi por lá foram luzes de flash em minha direção =S. Teve uma hora que eu pensei, "daqui a pouco me colocam em um habitat e não deixam eu ir mais embora..."

Ser fotografada é uma coisa normal para uma munaqaba brasileira, afinal somos de fato raras no Brasil. Eu particularmente já estou acostumada, na verdade sempre pedem para tirar fotos comigo quando eu saio de casa, mas nunca vi tanta gente assim. A vantagem é que a pessoa acaba conversando comigo e eu aproveito para fazer Dawah, mas ontem foi como se um enxame permanente de fotógrafos nos perseguisse por onde nós íamos no Zoológico...

O passeio em si foi ótimo, as pessoas não incomodam de verdade, ao contrário sempre se mostram educadas, e a companhia das queridas irmãs Najla, Michelle e Thami foi o suficiente para garantir um ótimo dia.

Destaco um simpático rapaz que, tendo nos abordado perto do setor de répteis com a intenção de tirar uma foto nossa, e certamente tendo concluído que éramos "árabes" e portanto não devíamos falar português, limitou-se a se comunicar conosco por meio de gestos, e foi assim até o fim quando agradeceu pela foto, sem pronunciar uma palavra sequer.

Outra abordagem interessante também foi a abordagem de duas simpáticas senhoras que se mostraram de fato emocionadas por me ver! E elas nos chamaram de "mulheres do caminho" como se fôssemos a coisa mais rara do mundo, e comentaram sobre uma tal "pastora" - "... que pena que a pastora não está aqui para ver vocês..."

Entre os animais, para variar um pouco, eu fiquei fascinada ao ficar perto mais uma vez das minhas queridas Harpias! Para quem não sabe, a maior, mais forte e mais impressionante ave de rapina do mundo, é brasileira! Seu nome é Harpia, e eu acho que ela deveria ser eleita um dos símbolos do Brasil!

Harpia

Para vocês terem uma idéia da dimensão desta águia, as unhas da harpias são maiores do que as unhas do urso pardo, o maior urso que vive na América do Norte. A fêmea da harpia, maior do que o macho, chega a ter uma envergadura de 2 metros de comprimento de ponta a ponta das asas, um animal realmente impressionante, e eu me sinto muito bem perto delas.

Elas me fascinam todas as vezes que eu vou ao Zoológico, e o Zoológico de São Paulo tem sido muito bem sucedido na manutenção destas aves impressionantes, tendo dois viveiros imensos que permitem o vôo contendo cada um destes viveiro, um casal.

Outro animal que me fascinou muito foi o Rinoceronte branco, porque eles são fofinhos! Dá vontade de entrar no viveiro e apertar a bochecha deles =) e eu sou uma verdadeira menina e me dou muito bem com animais, e gosto de bichos fofos assim, tá bom? =D



Vimos também o Trigo, um tigre siberiano imenso criado com mamadeira pelos biólogos do Zoo, os cachorros vinagre, e muitos outros animais, mas infelizmente eu descobri que os meus queridos bisões norte-americanos não estão mais lá, e eu não sei o que aconteceu com eles.


Cachorro-vinagre, um canídeo típico do Brasil e América do Sul em geral
Eu gostava muito de estar com eles, e na vez anterior que eu tinha ido ao Zoológico, um deles se aproximou de mim e abaixou a cabeça, eu extendi o braço e fiz carinho na testa dele e ele ficou ali um tempão quietinho recebendo o meu carinho, enquanto um distinto senhor levava uma senhora cusparada na cara de uma lhama mal educada no viveiro ao lado...


Sussuarana, ou onça parda, também conhecida como Leão da Montanha, ou Puma, na América do Norte

Onça Pintada, o terceiro maior felino do mundo, o único que ataca as vítimas mordendo o crânio, uma excelente nadadora e um ícone de nossas matas

O dia também se tornou muito especial porque tivemos a alegria de testemunhar a Shahada da nossa querida e mais nova irmãzinha Thami Khadija, cujo vídeo segue no próximo post.

E além disso, os fatos engraçados de sempre: uma pessoa olhou para nós e falou "Olha as burquianas!!" se referindo à burka...

Em outro momento, a Najla ouviu alguém falar que éramos "arábiasauditianas"! Esta eu nunca havia ouvido =O... e a Thami se divertiu ao ver como as pessoas olhavam para nós, e para mim, uma munaqaba no meio do Zoológico de São Paulo.

Na saída, a velha desorganização e incompentência de sempre, mas foi um dia memorável, Mashallah! =D

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

SÓ UMA MUÇULMANA SABE DIZER COMO UMA MUÇULMANA SE SENTE


Vídeo para refletir...

Eu acho que, se você quer saber como se constrói um avião, você não vai perguntar para um padeiro sobre isto.

Da mesma maneira, você não pergunta para um budista, como se sente um padre.

Eu acho que você não pediria para um professor de matemática te ensinar sobre literatura.

Então é lógico que, se você quer saber como se sente uma muçulmana, o que ela sente, o que ela pensa, você deve perguntar para uma muçulmana.

Eu encontro na internet exemplos realmente impressionantes de demonstrações de ignorância disfarçadas de sabedoria. São pessoas que nunca na vida conversaram com uma muçulmana e querem definir o que somos, como nos sentimos, o que vivenciamos.

Querem tapar a nossa boca de forma violenta com as próprias mãos, e tornar nossa a voz deles à força, na base da violência!!

NINGUÉM TEM O DIREITO DE DIZER PARA AS OUTRAS PESSOAS COMO EU ME SINTO! Se você quer saber como uma muçulmana se sente, de verdade, sem mentiras, sem preconceito, sem pedantismo, sem enganação, é muito simples: pergunte a uma muçulmana, tá bom?

Salam! =)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Munaqaba - O que é, porque é, e como eu me tornei uma...

Este é um post do tipo "dois em um"... ou talvez "três em um" então pode ser que ele fique extenso, vou tentar condensar ao máximo para tornar a leitura agradável.

Mas vamos lá! Yalla bina!!

Eu sempre gosto de lembrar aqui que, quando eu escrevo, estou escrevendo para todos, mas penso principalmente nas pessoas que não são muçulmanas, e também naquelas que estão conhecendo o Islam agora.

O meu blog tem duas funções principais:

01) Dawah;

02) Tentar traduzir em palavras a minha alma, a minha vivência, o que eu sinto e o que eu vivencio.

Neste sentido a linguagem aqui é a linguagem do sentimento e da vivência da vida, eu vivencio a condição de ser uma mulher dedicada a uma religião, a condição de ser uma muçulmana, a condição de ser uma munaqaba. Eu amo a Allah, amo o Islam, amo a vida, e a vivência + o que eu sinto são as matérias primas que eu uso para criar, e divulgar.

Eu sempre estou falando sobre o fato de eu ser uma munaqaba, e que eu tenho orgulho de ser uma munaqaba, e munaqaba isto, munaqaba aquilo, e vira e mexe alguém me pergunta "Mas Gisele, o que é uma munaqaba?"

Então vamos já logo de início responder:

MUNAQABA, é a muçulmana que usa niqab.

E NIQAB, é o véu que cobre o rosto.

Em algumas regiões e em alguns lugares, nós somos chamadas também de NIQABI, mas em resumo é isto, somos muçulmanas, e usamos niqab, o véu de rosto.

Outra pergunta que eu ouço muito é: "Mas tem diferença entre você e uma muçulmana que só usa o "lenço" na cabeça, por exemplo?"

Não, não tem. Não há "hierarquia" relacionada ao uso ou não do niqab, não sou nada a mais do que outras irmãs que não usam niqab, e muitas vezes sou é menos em termos de conhecimento, porque eu sou apenas uma aprendiz, e muitas irmãs sábias e experientes optaram por não usar niqab. Então somos todas iguais, não há nada como grau de sabedoria ou algo assim relacionado ao niqab.




E cores? Porque tem de ser sempre preto?

É... na verdade não tem de ser preto, na verdade nem sempre é preto, basta ver a foto aí em cima, o niqab é branco.

Existem niqabs de diversas cores, e estilos, existem niqabs que cobrem a face e são totalmente bordados, existem niqabs que apenas cobrem a boca, outros cobrem tudo integralmente, e isto é questão de escolha pessoal.

Niqab bordado em tecido rígido usado por mulheres de algumas tribos do interior do Iran

Eu uso preto. Muitas munaqabat (plural de munaqaba) usam preto, por escolha pessoal, por modéstia, por n razões diferentes, mas o preto não é obrigatório.

E o niqab é apenas o véu do rosto, ele não cobre o corpo todo. Geralmente usamos o niqab com abayas (vestido islâmico comprido de mangas compridas), ou com chador, também conhecido como isdal (este sim, uma vestimenta como um véu que cobre da cabeça aos pés), e este conjunto pode ou não ser complementado pelo khimar (seria como um hijab, o tal "lenço" de cabeça mais usado, porém muito mais comprido cobrindo em geral o tronco todo).

E não usamos niqab dentro de casa, só se estivermos recebendo visitas, e entre as visitas estiverem homens que não sejam parentes. Se eu estou na mesquita, no setor reservado a nós mulheres, eu tiro o niqab, se estou em minha casa só com parentes ou só com mulheres, eu não uso niqab nem chador nem nada disto. Só uso na presença de homens estranhos.

O meu noivo me vê sem niqab, ele é o único homem que não é meu parente e me vê sem niqab. Mas ele verá os meus cabelos e o meu corpo apenas depois de se tornar o meu marido. Em algumas regiões é comum o noivo ver os cabelos da noiva também, mas isto não é uma constante.


Eu já publiquei esta foto aqui no meu blog, eu gosto muito dela, é o tipo de chador que eu uso, combinado com o niqab

Agora, a grande questão mais popular de todas: "Nooossaaaa!!!! Você usa burca!!!"

Rs... eu ouço muito isto por aí, as vezes até de forma positiva, teve um dia que um motoqueiro que fazia entregas na minha rua parou a moto e me disse todo feliz "É a primeira vez na minha vida que eu vejo uma mulher de burca!". E ele estava tão felizinho que eu apenas compreendi e acenei para ele, ele foi embora todo contente.

Mas eu não uso burca, ou burqa... Burqa é outra coisa, um tipo de véu inteiriço encimado por uma espécie de touca ou taquia, com redinha cobrindo os olhos e sem espaço para as mãos, geralmente. Munaqabat usam niqab, não burqa, sim? Que fique bem claro, e na verdade eu acho que o uso da burqa é de fato muito restrito ao Afeganistão, pelo que eu observo. Em geral mulheres afegãs apenas usam burqa.


Isto sim é burqa. Como vocês podem ver, é diferente do que uma munaqaba usa

Bem, digo tudo isto, vamos agora entrar no campo da polêmica geral!

Muitas pessoas me perguntam se eu sou obrigada a usar, se muçulmanas são obrigadas a usar o niqab. Esta é uma pergunta com uma resposta muito complicada! Porque a questão é polêmica mesmo dentro da comunidade Islâmica, e mesmo entre os Sheikhs e sábios do Islam.

As respostas são variadas, vão desde quem defende que niqab não é islâmico até quem defende que o uso é sim obrigatório segundo o Alcorão e a Sunnah.

Eu pessoalmente escolhi com muita alegria em meu coração usar o niqab, então para mim não importa muito esta discussão porque de um jeito ou de outro, eu escolhi usar, eu uso, e eu vou usar para sempre.

E a minha opinião pessoal é que não cabe a nós muçulmanos a interpretação e decisão sobre esta questão, e sim aos estudiosos habilitados para isto, os Sheikhs e os sábios que estudam durante anos para poder dar decisões e emitir fatwa com base na interpretação fundamentada do Alcorão, e dos ahadith da Sunnah. Deste modo eu acho totalmente errado alguém afirmar com todas as letras que o niqab é sim obrigatório e ponto, da mesma maneira que eu acho um absurdo total alguém afirmar que o niqab não é islâmico, ora se os sábios e estudiosos não têm um consenso sobre isto, quem somos nós para decidir sobre a questão?

Agora eu vou colocar aqui um link de uma matéria, mas esta matéria defende a visão de que o niqab é obrigatório, baseada em interpretações seguras. Eu acho que pode-se opinar com base em fatwa e opiniões de quem deve fazer isto, os sábios, pela obrigatoriedade ou não, mas cito esta matéria apenas como exemplo de como a questão é mesmo polêmica, voltando a ressaltar que no meu caso não há muita importância porque eu escolhi e não vou parar de usar o niqab. Trata-se de um excelente texto do site RELIGIÃO DE DEUS - A VOZ MUÇULMANA NA INTERNET. Vale a pena ler este texto e conhecer este ótimo site:

Porque eu uso niqab? Porque eu concordo com o que foi explanado neste texto.

Porque é a minha escolha e a minha forma de expressar a minha modéstia.

Porque é a minha forma de mostrar a minha submissão e entrega total a Allah.

Porque é a minha marca como uma muçulmana, porque para mim é lembrança constante da vida que eu escolhi, uma vida totalmente islâmica, porque para mim traz a lembrança constante de Allah em tudo o que eu faço, em todos os lugares que eu estou.

Estas são as minhas razões pessoais, e eu sinto orgulho, e alegria constante, por ter conseguido atingir o meu objetivo de ser de fato uma munaqaba.
E como eu me tornei uma munaqaba?

Bem, foi assim... Eu sempre fui fascinada pelo uso das roupas islâmicas. Mas eu nunca imaginei que um dia eu seria uma muçulmana de rosto coberto.

Conforme eu já contei em alguns posts recentes sobre a minha reversão, eu me reverti ao Islam em 19 de outubro do ano passado e durante algum tempo eu permaneci sozinha adaptando a minha vida até que a Halima entrou em contato comigo e se ofereceu para me apresentar a Mesquita do Pari. E acontece que ela é uma munaqaba e isto sempre me fez ficar fascinada pelo blog que ela tinha. Eu mergulhava em leituras que me faziam viajar para outros lugares no blog dela, antes de me reverter ao Islam e ter ela como minha amiga, mas quando nós nos conhecemos ela havia acabado de voltar do Oriente Médio, onde residiu por algum tempo com o marido dela, e ela não estava usando niqab aqui no Brasil, em parte por receio de usar por aqui, em parte porque nós munaqabat somos de fato raras até hoje no Brasil.

Mas ela tinha vontade de voltar a usar, e eu sempre disse a ela que se ela precisasse de companhia para sair de niqab, poderia contar comigo.

Um dia, ela me fez uma proposta: visitarmos a exposição ISLAM - ARTE E CIVILIZAÇÃO, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro de São Paulo, de niqab e chador!

Eu topei na hora, e este dia foi o primeiro dia em que eu usei niqab na minha vida!

E o fato é que eu gostei muito da experiência. Foi como se eu tivesse nascido para ser uma munaqaba, me senti especialmente confortável e à vontade com o chador e o niqab, e decidimos repetir esta experiência e fazer outros passeios de niqab.



Assim fizemos, e eu acabei por encomendar um niqab com a Iqbal, nossa irmã querida que vende hijabs e faz roupas sob encomenda lá na Mesquita do Pari.

Eu disse para eu mesma "No dia em que eu atravessar a porta da minha casa de niqab, eu nunca mais vou parar de usar." E foi o que eu fiz! Eu recebi o meu niqab na mesquita, lá mesmo o coloquei, e nunca mais parei de usar. Alhamdulillah!

Eu sei que aqui no Brasil, pelo fato de sermos raras, e pelo fato do Islam ainda estar crescendo por aqui, a minha presença é sempre marcante sim por onde eu passo, mas no meu caso pessoal, em geral as pessoas olham para mim com olhar de admiração, e simpatia, e além disso se interessam por falar comigo, em especial as crianças, eu agradeço a Allah por isso e sei que se isto acontece comigo é por obra e graça de Allah.

E além disso, volto a repetir uma lição que eu aprendi um dia: O MUNDO SEMPRE REAJE DE ACORDO COM A MANEIRA COMO VOCÊ AGE.

Salam!