segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Caminho Percorrido


Eu acho que todas as pessoas têm uma história magnífica e para contar. Porque a história de cada ser humano é sempre um livro novo, nunca antes escrito, e nunca mais editado.

Por mais que a visão às vezes superficial que lançamos sobre o outro tente negar a ocorrência única daquela história, no fundo no fundo não existem duas histórias de vida iguais, não existem dois caminhos com o mesmo traçado.

Sim sim, temos similaridades, mas sempre há a particularidade a diferenciar uma pessoa de outra, e assim também é a sua história.

Somos todos iguais na diferença, e diferentes dentro de nossas igualdades.

Uma pessoa não é superior à outra em nada no fim de todas estas histórias! Todos nós teremos invariavelmente, o mesmo fim...

Assim é também comigo, não sou melhor do que ninguém, nem pior, sou igual, porém diferente, e a minha história pode ter suas particularidades como tem sim, mas no fundo no fundo é exatamente igual à outras histórias.

Aproxima-se uma importante data para mim, o aniversário de 1 ano da minha reversão ao Islam.

Sim! 1 ano! Surpreendeu-se ao ler isto? Eu desconfio que sim, já que eu mesma já presenciei a surpresa estampada no rosto de algumas irmãs e irmãos, e amigos em geral, quando eu falo isto, não sei porque, mas acontece, eu ainda não tenho 1 ano completo de Islam. Terei 1 ano completo no dia 19 de outubro que se aproxima, porque eu fiz a minha Shahada no dia 19 de outubro de 2010.

Um dia lindo, único e inesquecível para mim. Uma linda e calma tarde ensolarada em que eu abri a janela do meu quarto, que é voltada para a direção de Makka e, observando a luz que inundava a linda vista da cidade que eu tenho a benção de ter, um dia dourado, que dourava toda a cidade, todos os prédios, toda a paisagem, então as lágrimas inundaram os meus olhos, e eu com muito amor e certeza em meu coração, pronunciei o meu testemunho de fé:

Ash hadu an la illaha ilah Allah, wa ash hadu anna Muhammadan hasulullah

Foi um momento único em minha vida, um divisor de águas, um ponto de chegada, e um ponto de partida, o novo nascimento para uma nova e plena vida.

Desde então eu nunca mais fui a mesma, a minha história tomou novo rumo, e muitas coisas aconteceram comigo ao longo do caminho até aqui.

Como eu cheguei até aqui? Eu sei, e não foi um caminho curto nem tampouco fácil de se caminhar... mas me dou ao direito de não mais as pedras pontiagudas deste caminho contar, eu já as contei muito, cada vez que as contei me cortei novamente e sangrei, agora eu não preciso mais fazer isto, agora eu não preciso mais me cortar.

Mas basta dizer que eu estava morta, sangrando e ferida de morte nascida e de morte matada, quebrada em um canto de mim mesma a agonizar.

Basta dizer que um dia eu fui pequena o suficiente para brigar com Allah, e tudo negar, entorpecida pela dor, e também pela vida banhada em entorpecentes que eram naqueles negros dias a anestesia que me dava a ilusão de suportar tudo aquilo.

E foi neste gancho, nesta curva, neste instante, que Allah cuidou de mim! E curou as minhas feridas como alguém que cuida de frágil ave em situação delicada, me deu de beber e de comer, restaurou a minha vida, me fez reerguida e pronta para sentir a verdadeira paz dentro de mim.

Quando eu estava pronta, quando eu estava curada, viva novamente, só depois que eu estava novamente restaurada, não mais morta nem de morte nascida, e nem de morte matada, só depois disto, no momento certo, é que eu fui conduzida ao Islam.

Uma noite, navegando pela internet, eu achei um site que ensinava a língua árabe, e fiquei encantada! Foi como achar a ponta partida do fio da minha vida, porque o Islam, e a cultura árabe, duas coisas diferentes, sempre estiveram presentes em minha vida.

Eu vi um filme na minha frente, me lembrei do meu pai que já havia falecido, dos deliciosos pratos da culinárias árabe preparados com tanto carinho pela minha mãe, me lembrei da Mesquita Brasil, sempre presente em minha visão de criança, eu me lembrei de Malba Tahan, do meu "tio" turco, do apreço que todos estes elementos criaram em mim pela estética islâmica, pela arte e cultura, pela linguagem enfim!

Esta "influência", eu carreguei por toda a minha vida, em tudo que fiz, em tudo que criei ao longo do tempo, desde desenhos da minha infância até melodias e escolhas pessoais, mesmo quando eu não percebia conscientemente, eu sempre escolhia e selecionava elementos que tinham esta influência como tema.

Achar aquele site no momento certo da minha vida foi um grande achado, e eu resolvi aprender finalmente a falar árabe.

O site era ótimo, prático, fácil! Era um site em inglês, mas com uma organização e método de ensino funcional e empolgante. Em pouco tempo eu já estava sabendo ler as letras do alfabeto árabe clássico, e isto me deixou animada.

Tão animada que eu comecei a me arricar em leituras, e foi quando eu me lembrei do Alcorão, eu nunca havia lido sequer uma passagem do Alcorão! Para mim era um livro misterioso, e isto já tinha em si dois elementos que me atraiam: o fato de ser um livro, porque eu sou apaixonada por livros desde pequena, e o fato de ser desconhecido para mim, o que atiçou a minha curiosidade...

O que eu já havia lido à respeito do Alcorão? Eu sabia que ele era escrito em forma de poema, que era um livro altamente refinado em termos literários, sabia também que ele era considerado sagrado para mais da metade da população do mundo, mas basicamente era só isto que eu sabia.

Por conta da minha criação, sempre recheada de diversos elementos culturais, eu e os meus irmãos nunca tivemos a contaminação danosa do preconceito. Então eu não sofria de preconceito contra o Islam, e contra os muçulmanos.

Eu confesso que sim, aí sim, para mim eles pareciam ser "um povo estranho"! Mas esta sensação existia, e eu sabia, porque eu simplesmente não os conhecia!

Eu tinha contato com pessoas das mais diversas religiões, nacionalidades, e origens. Tinha contato com mormons, com evangélicos, com judeus! Tinha contato com brasileiros, com portugueses, norte-americanos, ingleses, espanhóis, alemães, mas nunca na minha vida eu havia conhecido uma pessoa de origem árabe! Nunca, e muito menos alguém cuja religião fosse o Islam, eu realmente não conhecia.

Eu conhecia as mesquitas, eu conhecia a estética, eu conhecia as comidas, eu conhecia Malba Tahan.

Eu tinha um "tio" que era turco, isto é verdade, mas ele não era árabe. E muito menos muçulmano.

Eu sabia apenas que era uma religião talvez rígida, e eu sempre ouvia falar dos "xiitas", e o quanto eles eram radicais! Hoje eu penso o contrário, mas não vem ao caso ainda.

Então eu decidi que deveria ler o Alcorão. E comecei a procurar algum site onde eu pudesse ler o mesmo, já que eu não sabia nem por onde começar a procurar o livro para comprar, eu nada sabia até então.

E foi assim que, depois de um bom tempo de pesquisa, eu encontrei um site confiável que oferecia a possibilidade de se ler o Alcorão sem ter de baixar o livro pela net. E foi então que tudo mudou na minha vida novamente.

Eu fui arrebatada pelo Livro, inúmeras passagens me deixaram espantada e surpreendida, mas eu quero falar aqui de duas delas:

A primeira foi quando eu li a frase: "...E já não há mais a obrigação da Religião, já que a verdade já foi revelada..."

E a segunda passagem foi justamente a 13ª Sutara, a Surata do Trovão!

No dia 19 de outubro, depois do impacto de rever toda a minha história de vida segundo um ângulo que eu nunca havia visto antes, depois de lágrimas de emoção derramadas, depois de meses de pesquisa intensa e constante por textos e informação, depois de tudo, depois de morrer e renascer tantas vezes na vida, eu olhei para o céu daquela tarde ensolarada, e pronunciei a minha Shahada...

Foi assim, um momento único para mim.

Eu escrevi muito naquela ocasião, hoje estava relendo alguns textos, talvez eu os reproduza aqui neste meu cantinho, já que eu não tinha ainda este blog e eles não foram escritos aqui.

Esta é a minha história, ou melhor dizendo uma parte da minha história, é verdade, mas esta parte é a parte que definiu tudo, resignificou o que eu fui, decidiu o que eu sou, e projetou o que eu serei daqui para frente.

Allahu Akbar!

Um comentário:

Denise Bomfim disse...

Salam, sua história é linda!

Mash´Allah!

@>---- uma flor.